8 de Março: Guaicuy se une às mulheres na luta por justiça e reparação dos danos causados pela mineração

    Nos colocamos à disposição para ouvir e acompanhá-las na busca por direitos e convidamos a sociedade para conhecer a história destas mulheres revolucionárias

    Oficializado no dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher é uma data histórica que simboliza a luta das mulheres por direitos. Não direitos iguais, mas equânimes e justos.

    Por falar em luta, no cotidiano do nosso trabalho no Guaicuy, temos exemplos diários, em cada reunião de comissão, em cada grupo para encontros de mobilizações e decisões, do quanto as mulheres são  protagonistas na luta pela reparação integral das pessoas atingidas pela mineração. Observamos isso nas comunidades prejudicadas pelo rompimento da barragem de rejeitos da Vale em Brumadinho, ocorrida em 2019. E também em nossos outros projetos e na Assessoria Técnica Independente que prestamos para a população de Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto que convive com o risco do rompimento da barragem Doutor, que pertence à mesma mineradora.

    Foto: Quel Sato/Instituto Guaicuy

    Ao realizar o Acolhimento com mulheres que assessoramos na busca por direitos, muitas vezes, presenciamos mulheres sobrecarregadas com tanto trabalho e tanta luta em busca de justiça e ainda assim sonhando com um futuro melhor. Estas mulheres são diversas, mas em sua maioria são negras, pardas, pescadoras, filetadeiras, faxineiras, comerciantes, donas de casa e muitas outras. 

    São elas as lideranças e as maiores responsáveis por cobrar soluções das autoridades e instituições que representam suas comunidades na Justiça, são elas que encabeçam as comissões e são elas também a maioria em reuniões para a tomada de decisões para a coletividade. Além de tudo isso, a maioria delas ainda precisa lidar com o trabalho, com o cuidado dos filhos, familiares e com tarefas domésticas. 

    O rompimento da barragem em Brumadinho mudou a vida de milhares de famílias ao longo da bacia do Rio Paraopeba, da Represa de Três Marias e de comunidades de São Gonçalo do Abaeté e Três Marias, banhadas pelo Rio São Francisco; especialmente das mulheres. Uma série de problemas foi surgindo a partir do desastre-crime, como os de origem psicológica, adoecimento físico, mas principalmente os de ordem financeira.

    É por isso que o Guaicuy é parceiro na luta das mulheres por respeito e direitos, mas também na luta pela liberdade de ser exatamente o que sonha ser, especialmente quando se fala em mulheres atingidas pela mineração. As responsabilidades e a força intelectual destas mulheres estão sempre sendo testadas na luta por reparação. E falta reconhecimento de seu esforço constante pelo bem comum.

    É por isso que o Guaicuy também se coloca à disposição para ouvi-las e acompanhá-las, uma vez que só há luta justa quando se faz junto e de mente e coração abertos.

    É por isso também que convidamos a sociedade para conhecer melhor a história destas mulheres revolucionárias, tanto na luta, quanto na força, pelo desejo por uma reparação integral, mas principalmente no desejo de justiça para todas as pessoas, para os que se foram, os que estão e os que virão.

    E compartilhamos o poema clássico “Conselhos para a mulher forte, de Gioconda Belli (Nicarágua, 1948):

    Se és uma mulher forte

    te protejas das hordas que desejarão

    almoçar teu coração.

    Elas usam todos os disfarces dos carnavais da terra:

    se vestem como culpas, como oportunidades, como preços que se precisa pagar.

    Te cutucam a alma; metem o aço de seus olhares ou de seus prantos

    até o mais profundo do magma de tua essência

    não para alumbrar-se com teu fogo

    senão para apagar a paixão

    a erudição de tuas fantasias.

    Se és uma mulher forte

    tens que saber que o ar que te nutre

    carrega também parasitas, varejeiras,

    miúdos insetos que buscarão se alojar em teu sangue

    e se nutrir do quanto é sólido e grande em ti.

    Não percas a compaixão, mas teme tudo que te conduz

    a negar-te a palavra, a esconder quem és,

    tudo que te obrigue a abrandar-se

    e te prometa um reino terrestre em troca

    de um sorriso complacente.

    Se és uma mulher forte

    prepara-te para a batalha:

    aprende a estar sozinha

    a dormir na mais absoluta escuridão sem medo

    que ninguém te lance cordas quando rugir a tormenta

    a nadar contra a corrente.

    Treine-se nos ofícios da reflexão e do intelecto.

    Lê, faz o amor a ti mesma, constrói teu castelo

    o rodeia de fossos profundos

    mas lhe faça amplas portas e janelas.

    É fundamental que cultives enormes amizades

    que os que te rodeiam e queiram saibam o que és

    que te faças um círculo de fogueiras e acendas no centro de tua habitação

    uma estufa sempre ardente de onde se mantenha o fervor de teus sonhos.

    Se és uma mulher forte

    se proteja com palavras e árvores

    e invoca a memória de mulheres antigas.

    Saberás que és um campo magnético

    até onde viajarão uivando os pregos enferrujados

    e o óxido mortal de todos os naufrágios.

    Ampara, mas te ampara primeiro.

    Guarda as distâncias.

    Te constrói. Te cuida.

    Entesoura teu poder.

    O defenda.

    O faça por você.

    Te peço em nome de todas nós.

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